quarta-feira, 21 de junho de 2017

Era para ser sem-fim, mas teve ...


Desde criança, sempre gostei dos bichos em geral, minha infância sempre foi povoada por uma infinidade de bichos, dos mais variados. E se tinha uma coisa que eu gostava, era de ir pescar com meu pai e meu avô, não pela pescaria propriamente dita, apesar de eu gostar de ver de perto,  as diferentes espécies de peixes que pescávamos, às vezes, os mantinha vivos e os colocava numa enorme taça de vidro transparente que minha mãe tinha em casa, e ela colocava a taça em cima da mesa da cozinha, longe das minhas mãos, e, claro que eles não sobreviviam, coisa de criança, mas eu ficava horas vendo-os nadar, fascinado. Mas para mim era muito interessante essa proximidade com o rio, as matas, estar perto das árvores, observar os tipos de plantas, sentir os cheiros, sentir o frio da manhã e ouvir a "missa do sol", que é quando a passarada acorda e todo mundo canta junto. Dizia meu avô, que horário bom pra pescar é quando amanhece e no finalzinho da tarde, então ainda estava escuro quando a gente chegava, às vezes com névoa acima das águas de uma das curvas do Ribeirão Quilombo, lembro até hoje, da gente chegando, com os pés ensopados de orvalho gelado do mato, da trilha que tínhamos que fazer até chegar à margem. Era uma curva de rio bem bonita, o rio tinha uma correnteza forte, mas calma, e no meio do rio, havia um grande tronco, onde se instalaram plantas aquáticas que ficavam dançando ao sabor da correnteza abaixo da superfície, ganhando cores vivas, conforme o sol ia subindo. E foi numa dessas vezes, se não me engano, que o ouvi pela primeira vez, meu pai, ou meu avô, me ensinaram que aquele era o sem-fim, e parecia mesmo sem fim, pois ele não parava o tempo todo, acho que tive uma fixação por ele, pois o ouvia em todos os lugares que morei, curiosamente, sempre conseguia ouvi-lo ao longe, tanto de dia, quanto à noite, às vezes antes de dormir, já com a cabeça no travesseiro, e sempre gostei do seu canto sem fim, mesmo sem nunca tê-lo visto.
Mas faz um tempo que eu não o escuto, talvez pela mata estar ficando cada vez mais longe de mim, e de onde moro, talvez por ele não ter se adaptado à zona urbana, mas ele nunca saiu da minha lembrança, e ontem, no carro, Dalmo me chamou à atenção para uma parte de uma musica, que lembrava o canto dele, e ele voltou à minha memória, o sem-fim. Vou ficar atento, quem sabe volto a ouvi-lo. 


Fim também tiveram várias coisas dessa pequena história da minha infância, o Ribeirão hoje, está praticamente morto, em suas águas negras de poluição, creio que não haja mais peixes, às margens dele, onde pescávamos, hoje é uma ocupação de moradores sem terra, e meu avô, faz já um certo tempo, não está mais aqui. 

Nunca me esqueço do termo "Missa do Sol", que aprendi no pequeno, mas valioso romance de Jose Mauro de Vasconcelos, Coração de Vidro,  que algumas vezes me fez chorar, e que talvez, tenha uma certa responsabilidade por hoje em dia, eu não querer possuir mais nenhum bicho de estimação que tenha que ser tirado da mata, ou do rio. 



2 comentários:

  1. Minha infância também foi adorável, embora tenha nascido na capital, mas uma capital dos tempos antigos. Não tive este privilégio de desfrutar da intimidade das matas, das águas, dos peixes e dos pássaros. Mas enfim ... uma vida que valeu a pena ser vivida como ouvir o doce canto do "Sem Fim".

    Beijão Marcos ... Belo texto, lindas memórias ...

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  2. Jose Mauro de Vasconcelos é um autor que amo.... quando li o termo "Missa do sol", ele me veio logo à lembrança. Os livros dele são todos recheados de ternura, como essa sua lembrança agora. Meu preferido era, e é ainda, "O Palácio Japonês". Me marcou pela melancolia do personagem.... muito bonito!

    abraços

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