sexta-feira, 17 de junho de 2016

Sagrado.



Um dia desses estava almoçando, e terminada a refeição, notei que tinha ficado um único grão de arroz no prato. Fiquei olhando para ele e imaginei todo o camilho que ele percorreu para estar ali, na minha frente para ser devorado. Desde seus ancestrais, outros grãos que deram origem a ele, que tiveram a sorte de serem selecionados, não para serem devorados, mas para serem plantados e deles, originar as plantas que fariam muitos outros grãos que não teriam a mesma sorte. Fiquei olhando para ele e pensei que ele não mereceria ficar ali. Ele, com toda a sua história, desde que era semente plantada na terra, terra que teve que ficar sem a sua floresta para que ele tivesse espaço para ser plantado, que virou planta e consumiu minerais e água e a energia do sol, que foi verde e amadureceu, que consumiu a força de trabalho dos homens que plantaram e o colheram, que usou o diesel do trator para ser colhido, que usou energia elétrica para sofrer inúmeros processos de transformação, que usou de novo o diesel nos caminhões para ser transportado por centenas de quilometros, que usou o plástico da sua embalagem, enfim, resultado de toda uma enorme rede de ações humanas, abrangendo uma infinidade de mãos que foram necessárias à todos os processos a que ele foi submetido, chegou à cozinha e foi manuseado e cozido, para chegar ali, e servir de alimento e transformado em energia vital. Não, não era um simples grão de arroz, depois de toda essa trajetória, era na verdade um pequeno milagre, era na verdade, sagrado, por ser alimento, e que se ficasse ali, iria para o lixo depois disso tudo, então, o comi.

Mercado Municipal de Campinas - Foto Marcos Campos



3 comentários:

  1. Cada pequeno objeto tem sua história e importância! Quem percebe essa história possui a qualidade rara da gratidão!
    Lindo texto

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