segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Egoísmo.




Ele era um cara legal, e era mesmo ! Todos a sua volta gostavam de ter ele por perto, de ouvir suas histórias, suas piadas, e riam muito junto com ele e realmente ele era assim mesmo, cativante, seu sorriso fácil conquistava quase todo mundo, fazendo com que ele sempre estivesse rodeado de pessoas. Mas havia algo podre por ali. Dentro dessa alegria toda de viver, havia um cara triste e fraco, prisioneiro de vícios e fraqueza de caráter. Que passou a vida toda frustrado e frustrando quem convivia com ele, frustrado porque sempre quis ser um cara que ele nunca foi, querendo viver uma vida de alegria e dinheiro que ele nunca teve. Ele sempre foi egotista, essa é a triste verdade, quem convive com ele de perto sabe que sim, há pessoas que não foram feitas para constituir família, pessoas incapazes de se doar por inteiro e de realmente se preocupar com o outro, próximo, e que foi cativado por ele, com o passar do tempo, ele foi ficando mestre em ignorar essas pessoas que faziam parte do círculo mais fechado da vida dele, antes de todos, era somente ele que importava. 
Com o tempo ele foi se contentando com pouco, pois também não  haveria jeito de ser mais que isso sua vida, dada a sua capacidade de fazer o pouco dinheiro que ganhava desaparecer, e não pensava duas vezes para ter esse pouco, ignorando as suas próprias necessidades, as necessidades básicas de sua família, de seus filhos, e foi acostumando com essa vida vazia, onde o dia a dia era basicamente em tomar várias biritas no bar com os supostos amigos de balcão, o suficiente para tirá-lo desse mundo que não era dele, para tirá-lo dessa vida real, onde a sua alegria e suas piadas já não faziam muito sucesso, se o dinheiro acabasse, sem problemas, os abutres donos de bar, forneciam para pagamento posterior, ele, já embriagado, as vezes nem sabia ao certo se o que cobravam depois era o correto ou não, e a alegria era isso, beber com os amigos, as vezes até apagar uma rodada, ora, porque não? Ele sempre achava que podia, sempre acreditava que daria um jeito!
As pessoas que gostavam dele simplesmente lhe eram insuportáveis, pois tentavam sempre trazê-lo de volta, pois como disse antes, ele era um cara legal, na verdade talvez, outro cara, sem bebida a coisa era outra. Mas ele não conseguia, mas ele não queria, dava muito trabalho ser sóbrio e assumir as responsabilidades de si mesmo e as quais ele assumiu quando resolveu se casar e ter uma família, era muito mais fácil se embriagar e deixar as responsabilidades nas costas de outra pessoa. E ele era bom nisso, ele era teatral, assim como sorria e fazia sorrir com facilidade, chorava e comovia com uma facilidade assustadora, e assim, muitas pessoas por muito tempo acreditavam que na verdade ele era um coitado, vitima das pessoas que mais queriam protege-lo: a família. Em momentos de lucidez, prometia a si mesmo que mudaria de vida e que estava cansado disso tudo, mas isso não durava mais que uma semana, a gente notava isso quando o via passar na rua, indo para casa, dias depois. 
É de uma tristeza enorme vê-lo assim, pois está definhando, está virando uma caricatura de si mesmo, o peso da idade está mostrando a ele o quanto é frágil, coisa que sempre negou veementemente para si mesmo, pois todo mundo sabe, que esse tipo de vida tem seu preço, aliás, todo tipo de vida tem seu preço, diferentes um do outro, mas tem.
Hoje ele é um velho que perdeu a atenção e o respeito de muita gente, inclusive dos filhos, pois acham que ele é um incorrigível! E pensando bem, é mesmo! Hoje em dia nem fala que quer mais uma mudança, contrariamente a isso, diz que não vai mudar e que é feliz assim, mesmo com todas as implicações que isso traz, o próprio sofrimento e o sofrimento de quem vive perto, que não lhe dá mais crédito, mas que ainda cuida dele, e sempre vai cuidar.
Todo vicio torna as pessoas egotistas, mas acompanhar uma trajetória decrescente é uma coisa muito ruim, ele já teve seus dias bons também, claro, não foi somente essa pessoa toda a vida, ele cuidou dos filhos e da esposa, garantindo o mínimo necessário para não haver reclamações, mas a vida poderia ter sido muito melhor para todos eles, poderia, mas ele fez sua opção, ele escolheu e pronto, não interessava as outras opiniões, uma escolha triste, pois eles, que escolhem esse caminho, sempre acham que estão indo sozinhos, mas sempre há, um monte de gente infeliz, indo junto.

2 comentários:

  1. Uma das descrições mais perfeitas de um caráter perigoso...
    Quando questionado acha-se uma vítima da incompreensão alheia.
    Quando deixado livremente arrasta todos em volta para o seu próprio sofrimento....
    Minha avó dizia, sem ser uma psicóloga formada: "Desgraça gosta de companhia."
    bjs

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    1. Sabedoria da sua avó !! As vezes a vida é a melhor escola !

      Bjo !

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